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23/08/2011

A percepção do fato pelo repórter

Assim como a Polícia parte de uma informação para desvendar um crime, o repórter policial também. A coerência do fato narrado ou não, pode determinar com desfecho feliz de um caso. A cena do crime é preservada para facilitar a coleta de dados. Um objeto, uma mancha de sangue que respinga em local adverso; um detalhe a mais coletado é esclarecedor.

Como repórter, a quem acredite que fico em casa ou num escritório aguardando somente a Polícia dar a informação. Assim como a Polícia recebe informação na Delegacia, também a busca com o trabalho de campo. O bom repórter idem. E mantém sempre atualizada sua rede de fonte. Mesmo não estando no local, me baseio na informação que parte da Polícia e verifico se procede ou não. 

O fato de ser a Polícia a fonte da informação, não posso acreditar piamente. É preciso verificar in loco também e checar com outras obtidas no local de um fato. Neste caso específico que culminou com a morte do policial e de dois marginais, não houve coerência entre o que foi anunciado pelo delegado Seccional e a seqüência da ocorrência.

O meu conhecimento me permite dizer que ninguém troca tiros tentando pular muro. É inconcebível admitir que sete policiais esperavam dois e, ainda assim, teriam sido surpreendidos ao ponto de um dos envolvidos conseguir matar; trocar tiros, fugir com tantos disparos que atingiram os corpos. A impressão que dá é que na troca de tiros, os marginais não caiam e continuavam atirando contra Polícia e simultaneamente fugindo?

O mais real nesta história é que na chegada dos bandidos, os policiais foram surpreendidos por fatores adversos ao planejado e daí para frente uma seqüência de falhas resultaram na morte do carcereiro Armando Laurindo dos Santos; a fuga dos acusados, a caça da Polícia e a execução dos mesmos. 

Bituca 

Fui informado da localização de um corpo na zona Rural de Marília. Rapidamente me desloquei e consegui chegar antes mesmo que a Polícia. Uma mulher havia sido torturada e esfaqueada. No local, já com a presença da Polícia preservando a cena do crime, encontrei numa região um pouco distante do corpo, uma ponta de cigarro desses de marca comum e mais em conta. 

Apesar de quase totalmente queimado, a peguei e a guardei num papel. Eu estava à frente da Polícia. Meu informante conhecia aquela mulher; porém, com a chegada da Polícia ele havia se ausentado. Mas quando me dera a informação, já havia antecipado a possível localização da residência da vítima, adiantando-me o seu pré-nome. 

Na região da casa da vítima, distante do local onde o corpo havia sido encontrado, procurei junto a vizinhança onde morava uma mulher com aquele nome. Encontrei um homem no local, me apresentei, puxei conversa e notei no bolso da camisa dele, um maço de cigarros. Eu não sabia a marca e precisava encontrar um jeito de descobrir.

Havia ficado sabendo que ele seria o amásio da mulher encontrada morta na zona Rural. A tática foi induzi-lo a retirar do bolso o maço do cigarro. Já o entrevistava sobre o ocorrido, mas não tinha pressa para concluir a matéria e nem esperava uma confissão dele. Queria apenas obter de forma a me convencer que entrevistava o matador. 

Em determinado momento, quando já pensava em concluir a matéria, retirei do meu bolso um cigarro e o acendi. Era a forma encontrada para que num ato involuntário, também o fizesse. Não deu outra. Foi automático. Desta forma notei que o cigarro encontrado nas proximidades da localização do corpo era da mesma marca que o suspeito fumava.

Retornei à cena do crime e a Polícia ainda periciava o corpo e a região do fato. Chamei um dos policiais que estava investigando o caso e o revelei o acontecido. A equipe deslocou-se rapidamente para a casa com a reportagem acompanhando e antes que fugisse, foi alcançado e detido. A confissão veio rápida. 

O sujeito por motivo passional, a induziu ir ao local, sob pretexto de conversar e discutir a relação longe de olhares de testemunhas e começou a sessão de tortura, inclusive queimando a vítima com “bituca” de cigarro para em seguida elimina-la. 

Portanto, na minha profissão sou preventivo. Estimulo a sociedade a auxiliar as autoridades no combate à criminalidade. Se o cidadão pode, a Polícia tem o dever e a obrigação. Sou repressivo. Opino, esclareço, investigo, desbarato através de reportagens seja o crime comum ou organizado, mesmo quando tem envolvimento de policiais.

Minha atuação se estende ainda contra administradores sejam eles dos Poderes Legislativo, Executivo ou Judiciário que estejam sob suspeição de irregularidades. Por tudo isso, sou também fiscalizado pela sociedade, cobrado pelos ouvintes e leitores e obrigado a responder inúmeros processos, impetrados por quadrilheiros, banda podre da Polícia e políticos corruptos. Todos provados.     

Portanto, o único medo que tenho é o medo de senti-lo, mas apesar dele, é preciso ir em frente. Senão, não faria o que faço, mesmo sofrendo represálias e, muitas vezes dando socos em ponta de faca.