“Esquema da saúde para o palco quebrou” em 2026
Como emendas bancaram shows de até R$ 1 milhão na região de Marília (SP). Ana Castela é a preferida e teria recebido R$ 73 milhões por contratos de governos de diferentes partidos.

A fórmula que bancou os shows mais caros da região de Marília nos últimos anos é a mesma que agora é copiada no interior do Rio de Janeiro e explica por que as festas foram canceladas em 2026.
O modelo consistia em usar emendas parlamentares destinadas à saúde, para reforçar o caixa da saúde e, assim, liberar o recurso próprio da prefeitura. Esse recurso próprio, que deveria estar na saúde, era então usado para pagar cachês de R$ 800 mil a até R$ 1,1 milhão para artistas como Ana Castela – que se apresentou na 51ª Exapit de Tupã em 2022 e na 53ª edição em 2024 -, e Gustavo Lima, respectivamente e ou Alok no Tupã Folia.
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FALTA DE EMENDA
Em 2026, a Prefeitura de Tupã informou oficialmente que a 55ª Exapit não foi realizada neste ano porque uma emenda parlamentar destinada ao evento não pôde ser formalizada antes do período eleitoral. Com isso, a administração decidiu não utilizar os recursos próprios para realizar a festa.
A nota oficial comprova a dependência: sem emenda, a prefeitura não bancou a festa com dinheiro próprio.
TENDÊNCIA DE CAUTELA

A decisão de Tupã acontece em um momento em que diversas prefeituras brasileiras vêm adotando maior cautela na realização de eventos de grande porte. O aumento dos custos operacionais, a pressão sobre os orçamentos públicos e a necessidade de preservar serviços essenciais têm levado municípios a reverem calendários de festas, rodeios e grandes programações.
Casos semelhantes têm sido registrados em diferentes cidades, como Luiziânia, Sales, Embu-Guaçu e outras localidades do país, onde eventos tradicionais também passaram por suspensão, reavaliação ou não realização diante do atual cenário financeiro. Pompeia, que também cancelou a Expompeia em 2026, segue essa mesma tendência.
IACRI PROVA A SUBSTITUIÇÃO

Em Iacri, a prefeitura fez o caminho inverso e admitiu a substituição de prioridades.
O prefeito Cléber Rogério Cerbantes Panhozzi (PL), anunciou o cancelamento da festa do peão em 2026. A decisão, segundo ele, passa por priorizar investimentos na saúde pública municipal.
A prefeitura ainda informou que a medida faz parte de uma reorganização das prioridades de Iacri. A tradicional festa do peão de Iacri é normalmente realizada em junho, reunindo grandes nomes do rodeio e shows artísticos. Ano passado aconteceu a 38ª edição.
Iacri prova na prática o que a reportagem apurou: o recurso de emenda para show poderia ser substituído e, quando não é substituído, sobra para a saúde.
MODELO DA REGIÃO
A mesma engrenagem agora aparece em São Fidélis, no Rio de Janeiro, mostrando que o modelo da região de Marília virou prática nacional, conforme matéria publicada no Jornal Cinforme:
Ana Castela está com apresentação marcada para esta quinta-feira (27), em São Fidélis, no Rio de Janeiro. O show terá cachê de R850mil, custeado por uma emenda parlamentar de R 1 milhão solicitada pela deputada federal Dani Cunha (PL). A prefeitura do município também é comandada pelo partido.
De acordo com documentos encaminhados pela prefeitura ao Ministério do Turismo, os eventos realizados na cidade costumam reunir, em média, 2 mil pessoas por dia. Para o show de Ana Castela, a estimativa é de aproximadamente 4 mil espectadores.
A expectativa é de que a apresentação atraia um público duas vezes maior que a média dos eventos locais, contribuindo para movimentar setores como comércio, hotelaria e serviços, além de gerar impacto na atividade turística do município.
O caso também chama atenção pelo histórico de contratos públicos envolvendo a artista. Entre janeiro de 2024 e março de 2026, Ana Castela teria recebido R$ 73 milhões por 93 apresentações contratadas por prefeituras e governos estaduais de diferentes partidos, entre eles PSD, PSB, PSDB, MDB, PP e União Brasil.
DESVIO DE FINALIDADE
O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo considera a substituição de fonte – usar emenda da saúde para liberar recurso próprio para show – como desvio de finalidade.
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