×

TUPÃ, 97 ANOS: A MANHÃ QUE PREFERIU REZAR A FESTEJAR

TUPÃ, 97 ANOS: A MANHÃ QUE PREFERIU REZAR A FESTEJAR

Por uma cidade que completa quase um século olhando para dentro

Tupan TUPÃ, 97 ANOS: A MANHÃ QUE PREFERIU REZAR A FESTEJARA manhã deste domingo, 12 de outubro de 2026, amanheceu diferente em Tupã. Não houve queima de fogos às seis da manhã, nem o desfile de sempre na Avenida. Não havia palco montado na praça, nem o cheiro de pastel e de algodão doce tomando conta do centro.

Pela primeira vez em décadas, Tupã fez 97 anos em silêncio.

Coincidência ou providência, o aniversário caiu exatamente no dia em que o Brasil celebra duas de suas maiores devoções: Nossa Senhora Aparecida e a Criança. E talvez por isso a cidade tenha entendido o recado. Às vésperas do centenário, não era hora de festa. Era hora de balanço.

Tupã acordou melancólica.

Ainda paira sobre as ruas a ressaca das eleições de 4 de outubro. Uma eleição atípica, dura, que dividiu mesas de bar, grupos de família e calçadas. As placas dos candidatos ainda estão na lembrança, como os muros que ainda guardam resquícios de tinta do passado. A cidade votou, escolheu, mas a reconciliação está longe. E essa ressaca eleitoral cobra seu preço: a gente se olha com desconfiança, como quem ainda não sabe em que Tupã vai acordar nos próximos três anos.

E essa melancolia não é tristeza. É pensamento.

O que seremos quando fizermos 100 anos? Essa é a pergunta que a cidade parece se fazer hoje, ao se olhar no espelho.

A capital da foto, a estância turística, o município capital do amendoim, a cidade dos 65 mil habitantes que já foi de 70 mil. Tupã cresceu desbravando a Alta Paulista, cresceu na marra, no trabalho dos pioneiros que chegaram em 1920 para abrir picada na mata. Durante 97 anos, a gente sempre soube para onde ir: para frente. Agora, a pergunta é mais difícil: como ir?

Por isso, a ausência de um calendário festivo foi, na verdade, o maior acerto deste ano.

Não houve show. Houve missa.

Não houve palanque. Houve procissão e oração.

Não houve discurso inflamado. Houve culto.

De manhã cedo, a Matriz de São Pedro já estava cheia. Famílias inteiras com crianças no colo e a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Nas igrejas evangélicas, o culto de domingo pediu sabedoria para a cidade. À tarde, a procissão deve reunir o que a eleição separou de novo.

E no meio de tudo, as crianças.

Elas, que hoje também são homenageadas, salvaram o dia. Porque a criança não guarda rancor. A criança não pergunta qual foi o partido que venceu. Ela só quer a bala, o abraço e o futuro.

E talvez seja esse o símbolo que Tupã precisava para chegar aos 97 anos: a fé de uma mãe que protege os pequenos, e a sinceridade de uma criança, que ainda acredita que tudo pode dar certo.

Faltam três anos para os 100. Não dá mais tempo de errar. Tupã não precisa de mais uma festa grandiosa para provar que é grande. Precisa de um projeto que seja sincero e inocente como uma criança, e forte como a fé que hoje a fez sair de casa para rezar, e não para comemorar.

Parabéns, Tupã. Que a melancolia de hoje seja a lucidez de amanhã.

Share this content:

Avatar photo

Jota Neves é um radialista e jornalista investigativo com mais de 35 anos de atuação, referência em comunicação no interior paulista, reconhecido pelo compromisso com a verdade, o combate à corrupção e reportagens de impacto sobre a sociedade.

Publicar comentário