Tenda vira arma em tempestade: por que insistir em evento com previsão de ventania é colocar a população em risco?
Mudança climática impõe nova regra: previu temporal, cancela a festa – ouça matéria
A cena se repete no interior de São Paulo e em todo o país: estrutura de festa montada, praça lotada, famílias com crianças – e, de repente, uma célula de tempestade que ninguém levou a sério derruba tudo. Foi o que aconteceu em Tupã (SP) com o Fefolt. Toda estrutura usada no Festival de Folclore foi jogada para o alto. Por sorte era madrugada de segunda-feira (31) e a praça da Bandeira estava vazia. É o que tem acontecido em rodeios, quermesses, shows e eventos esportivos.
O recado das mudanças climáticas é claro: o que antes era “chuvisco de verão” hoje é tempestade severa com rajadas de 70, 90, 100 km/h, raios, granizo e fenômenos extremos como micro e macroexplosões – que são rajadas descendentes que atingem o solo e se espalham com força destrutiva.
E diante disso, promotores de eventos privados e, principalmente, gestores públicos, precisam mudar de postura. Não dá mais para olhar só para o céu e dizer “vai passar”.
Previsão é item de segurança
Hoje, o Brasil conta com uma rede de radares do IPMet/Unesp, alertas da Defesa Civil via SMS e WhatsApp, modelos do INMET e do CEMADEN que avisam com 2, 3 horas de antecedência quando uma célula severa está a caminho.
Ignorar alertas é assumir um risco calculado com a vida alheia.
Em casos de previsão de mudança de tempo com alerta amarelo ou laranja para tempestade, raios e ventania, o recomendável tecnicamente é:
- Adiar, não insistir: A decisão mais responsável é adiar a abertura do evento, suspender a montagem de estruturas leves – tendas, lonas, palcos de pequeno porte, brinquedos infláveis, painéis – e remarcar.
- Plano de evacuação: Todo evento em área aberta precisa ter um plano B. Para onde vai o público se ventar 60 km/h? Quem desliga a energia? Quem orienta a saída? Isso precisa estar no alvará.
- Responsabilidade do poder público: Quando o evento é da prefeitura, a responsabilidade é dobrada. O prefeito, os secretários de turismo, cultura e a Defesa Civil municipal respondem civil e criminalmente se mantiverem um evento sabendo do risco e alguém se ferir. A jurisprudência já trata isso como omissão previsível.
- Estrutura não é enfeite: A norma ABNT NBR 15926 exige ART, cálculo de vento e aterramento para estruturas temporárias. Tenda bem fixada com estaca e cabo de aço resiste a 50 km/h. Sem isso, vira projétil. Em Tupã, ferragens e figuras foram arremessadas – poderiam ter matado alguém.
O calor extremo que estamos vivendo – dias com sensação de 40ºC – é justamente o combustível para essas tempestades. O choque entre a massa de ar quente e a chegada de uma frente fria vinda do Paraná cria a tempestade perfeita. E ela não vai parar.
Promover festa é promover alegria, mas sem meteorologia, virou roleta russa. Cancelar ou adiar um evento por causa de previsão de temporal não é sinal de fraqueza. É sinal de gestão moderna, de respeito à família que saiu de casa para se divertir e quer voltar inteira para casa.
O céu avisou. Agora quem precisa mudar é a gente.
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